Brasil busca ampliar presença na economia circular global com reciclagem técnica e inovação industrial
Setor ganha espaço ao combinar sustentabilidade, recuperação de materiais, exportação regulada e profissionalização de operações ambientais
Reprodução O Brasil tenta avançar em uma agenda que já se tornou estratégica para a indústria mundial: transformar resíduos em novos insumos, reduzir desperdícios e ampliar a recuperação de materiais de valor. Em 2026, o tema ganhou força com iniciativas voltadas à mineração urbana, à recuperação de minerais estratégicos e à consolidação da Estratégia Nacional de Economia Circular, instituída pelo Decreto nº 12.082/2024.
A mudança ocorre em um momento em que a economia global ainda opera de forma predominantemente linear. Segundo o Circularity Gap Report 2024, apenas 7,2% dos materiais consumidos no mundo retornam efetivamente ao ciclo produtivo. O dado revela o tamanho da oportunidade para países capazes de estruturar cadeias de reaproveitamento com tecnologia, governança e escala.
No caso brasileiro, a vantagem está na combinação entre base industrial, geração de resíduos, mercado consumidor amplo e capacidade de conexão com cadeias internacionais. O desafio, porém, é transformar potencial em padrão técnico. Para competir em mercados regulados, a reciclagem precisa ir além da coleta e avançar em classificação, rastreabilidade, documentação ambiental e qualidade dos materiais recuperados.
É nesse ponto que Jackson Douglas da Silva Polidoro, empresário e especialista em economia circular aplicada, vê uma virada importante para o setor. Para ele, o Brasil não deve tratar a reciclagem técnica como atividade periférica, mas como uma frente industrial capaz de fortalecer a competitividade nacional.
“A economia circular global não será construída apenas por quem coleta resíduos. Ela será liderada por quem consegue recuperar materiais com qualidade, comprovar origem, atender exigências ambientais e reinserir esses recursos em cadeias produtivas de forma confiável”, afirma Jackson.
Para Jackson, o avanço brasileiro dependerá da capacidade de transformar conhecimento operacional em padrão de mercado. Isso significa criar uma cadeia menos fragmentada, com critérios claros para recebimento, separação, documentação e comercialização de materiais recuperados.
“Existe uma diferença grande entre simplesmente movimentar resíduo e operar uma cadeia circular com responsabilidade. O mercado internacional quer previsibilidade. Quer saber o que está comprando, de onde veio, como foi separado e qual documentação sustenta aquela operação”, analisa.
Esse padrão ganha relevância diante do avanço da mineração urbana no debate nacional. Em junho de 2026, a parceria entre MDIC e IPT para fortalecer a recuperação de minerais estratégicos a partir de resíduos reforçou a importância de reinserir materiais já disponíveis no ciclo produtivo. A proposta dialoga com uma preocupação global: garantir suprimento de insumos essenciais sem depender exclusivamente de novas extrações.
No setor privado, essa agenda também muda a forma como empresas ambientais se posicionam. Exportação regulada, certificações de qualidade, controle de lotes e rastreabilidade deixam de ser diferenciais isolados e passam a compor a base de credibilidade para operações em escala.
“A exportação de materiais recicláveis e resíduos controlados exige muito mais do que negociação comercial. Exige documentação, autorização, conformidade e capacidade de provar que a operação segue padrões ambientais. Quem entende isso consegue construir relações mais sólidas fora do país”, pontua.
A experiência brasileira ainda enfrenta obstáculos, especialmente na integração entre geradores de resíduos, operadores logísticos, recicladores, indústria e compradores finais. Cadeias fragmentadas dificultam o reaproveitamento eficiente e reduzem a qualidade dos materiais destinados à recuperação. Por outro lado, quando há coordenação, o resíduo deixa de ser passivo e passa a integrar uma estratégia de inovação industrial.
A busca por maior participação brasileira na economia circular global passa, portanto, por uma mudança de posicionamento. Reciclagem técnica, recuperação de metais, logística reversa e exportação regulada deixam de ser temas ambientais isolados e passam a integrar uma agenda econômica mais ampla, ligada à inovação, competitividade e segurança de cadeias produtivas.
Com pressão internacional por materiais estratégicos e modelos produtivos menos desperdiçadores, o Brasil tem espaço para avançar.
O caminho, porém, exige profissionalização. Para o setor, a próxima etapa será demonstrar que sustentabilidade pode ser também eficiência industrial, valor agregado e presença qualificada no mercado global.






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